5 Mitos sobre a relação entre Crossfit e lesões que apenas quem trabalha diretamente com isso poderia saber

  • Um estudo recentemente publicado sobre o perfil epidemiológico dos atletas de Crossfit no Brasil levantou um debate sobre a relação entre a prática de Crossfit e a ocorrência de lesões. Muitos profissionais da área de saúde, que não conhecem devidamente esta modalidade, comumente possuem opiniões desfavoráveis sobre o assunto. Todavia, o estudo em questão demonstrou que cerca de 31% dos praticantes apresentaram lesões em todo o seu tempo de prática, padrão semelhante ao encontrado em outros esportes como o LPO, ginástica artística, corrida e triatlo, e cerca de metade do número de lesões de outros esportes, como o futebol. Acreditamos que estas opiniões errôneas associadas ao Crossfit são mantidas por conta de mitos relacionados ao desconhecimento. Portanto, vamos tentar elucidar os principais mitos que comumente escutamos de pessoas que não conhecem a modalidade.

    Mito 1: O Crossfit é uma atividade lesiva;
    Os resultados deste estudo vão ao encontro do que encontramos em nossa prática clínica dentro de um box de Crossfit: Existem lesões associadas ao Crossfit? Sim, como em qualquer outro esporte. Todavia, uma grande parcela de nossos pacientes possuem queixas que manifestam-se no Crossfit mas que se originam em outros esportes ou em seu próprio cotidiano de trabalho. Além disso, o número de lesões traumáticas é mínimo e a maior parte das queixas está associada a disfunções miofasciais.
    É importante entender que existem fatores intrínsecos de cada modalidade esportiva que podem favorecer lesões, como a imprevisibilidade de um contato externo no futebol ou a própria presença de fatores que são lesivos, como nas artes marciais. Porém, a causa de grande parte das lesões pode estar dentro do próprio praticante. Fatores como a má alimentação, a qualidade do sono, uma periodização errada de treinamento e características biológicas individuais podem certamente influenciar na relação entre esporte/lesões.
    Como estudiosos do comportamento motor humano, vamos ainda mais além. O esporte nos coloca em situações de demanda aumentada com relação ao nosso dia a dia, fazendo com que pequenos erros mecânicos presentes em nossa forma de planejar e programar os movimentos possam ficar mais evidentes. Ao encararmos as coisas desta forma, fica claro que não existe um esporte que é, em sua essência, lesivo.

    Mito 2: O Crossfit pode machucar porque trabalha sempre com cargas altas e em altas intensidades;
    Novamente, esta afirmativa é fruto de um total desconhecimento sobre a modalidade. Todos os treinos possuem 3 categorias de dificuldade (scale, RX e elite) com cargas apropriadas para o nível do aluno. Além disso, a maior parte das academias de Crossfit oferece opções de treino adaptados para aqueles que ainda não possuem a técnica adequada ou para aqueles que possuem alguma queixa relacionada aos movimentos do WOD. A intensidade do treino também é adaptada para populações especiais, como idosos e crianças.

    Mito 3: O Crossfit pode machucar porque trabalha sempre com movimentos em grande amplitudes:
    Segundo o estudo epidemiológico mencionado acima, realizado com a população brasileira, e com alguns outros estudos americanos, as principais regiões acometidas são a lombar, joelhos e ombros. De acordo com os estudos americanos, os maiores índices de lesões na região lombar e nos joelhos foram associados aos movimentos de agachamento como o back e front squat, que também são comumente realizados em academias de musculação. As disfunções de ombro foram mais associadas aos movimentos acrobáticos, como o pull up, que também são realizados corriqueiramente em academias de musculação. Portanto, fica claro que as lesões associadas ao Crossfit ocorrem principalmente em exercícios comuns a outros esportes e normalmente não estão associadas aos movimentos em grande amplitude.

    Mito 4: O Crossfit pode machucar porque trabalha sempre com exercícios muito complexos;
    Novamente, esta afirmativa é fruto de um total desconhecimento sobre a modalidade. Além das categorias de dificuldade com demandas técnicas apropriadas para o nível do aluno, a maior parte das academias de Crossfit oferece opções de treino adaptados até que o aluno adquira a técnica adequada. Neste contexto, a complexidade dos movimentos é algo positivo, pois ao trabalhar com exercícios livres e complexos estimulamos ainda mais o controle neural do movimento e facilitamos a transferência destes padrões de movimento melhorados para atividades do dia a dia, podendo acarretar em um ganho secundário na prevenção de sobrecargas teciduais nas demandas do dia a dia.

    Mito 5: As pessoas sedentárias não devem iniciar uma prática esportiva pelo Crossfit;
    O estudo epidemiológico brasileiro trouxe um dado interessante para desmistificarmos este mito ao afirmar que “Os indivíduos destreinados e previamente sedentários apresentaram a mesma taxa de lesões que aqueles que praticavam o esporte regularmente”. Além de todas as informações já fornecidas para esclarecer os outros mitos, acrescentamos mais uma. A maior parte das academias de Crossfit exige que seus alunos ingressantes realizem algumas aulas fundamentais antes de iniciar a prática em grupo de Crossfit, onde os princípios técnicos dos principais movimentos serão ensinados e as dificuldades individuais de cada aluno podem ser identificadas para direcionar futuras adaptações nas aulas de grupo.

    Acreditamos que grande parte destes mitos são sustentados pelo desconhecimento da modalidade e por outros profissionais que se sentem ameaçados pelo rápido crescimento que o Crossfit vem tendo no Brasil. Grande parte do que esta escrito é fruto dos dados de estudos epidemiológicos, mas também descrevemos um pouco de nossa experiência clínica. Afinal, apenas uma equipe que realmente trabalha diretamente com o Crossfit em seu cotidiano na prevenção de lesões, na melhora de performance e na reabilitação é capaz de afirmar que o Crossfit – se realizado corretamente em uma academia credenciada, com os cuidados individuais com a alimentação, periodização de treinos e repouso – pode ser realizado com um risco mínimo de lesões, semelhante ao encontrado em outros esportes recreacionais comumente praticados pela população. Todavia, caso o praticante possua um histórico prévio de lesões ou venha a desenvolver uma queixa/lesão relacionada à prática da modalidade, o mesmo deve procurar profissionais da saúde competentes para a resolução do problema.

    Equipe Armor
    Instituto Opus Magnum