Dor Crônica, Movimento e o seu Cérebro: Porque aquela dorzinha precisa ser levada mais a sério do que você gostaria.

  • Apesar de ser uma sensação universalmente conhecida, você já parou para pensar qual é o significado da dor para o nosso corpo? Não seria justo exigir de você a resposta para esta pergunta sem antes introduzir alguns pontos importantes sobre o assunto. O mundo como o percebemos é o resultado de uma construção de nosso cérebro baseada em nossas experiências prévias e nas informações sensoriais disponíveis no momento, de forma que o que acreditamos perceber é, de fato, uma criação de nosso cérebro. Apesar desta afirmação parecer um pouco absurda em um primeiro momento, podemos facilmente demonstrar isto com exemplos do dia a dia. Se nós aprendemos durante a escola que as velocidades da luz e do som são diferentes, porque ao conversar com um amigo nós escutamos o som de sua voz ao mesmo tempo em que vemos sua boca se movimentar? Sabe aquela paisagem incrível que você viu nas últimas férias? E se eu te disser que as cores não são uma propriedade do objeto que “percebemos como colorido”, mas refletem a capacidade de nosso cérebro processar os diferentes comprimentos de luz que foram refletidos por aquele determinado objeto e captados por células especializadas presentes em nossa retina? Se as últimas descobertas da física quântica demonstram que, dentro de objetos ditos “sólidos”, temos mais espaços vazios do que acreditávamos, porque nós percebemos e vemos estes objetos como sólidos e contínuos? Se você ainda não está acreditando em todo este papo, aqui vai mais um exemplo. A ilustração abaixo é chamada “The Hollow Face Illusion”. Se você começar olhando para a imagem do canto superior esquerdo, acredito que concordaremos que esta máscara parece convexa (parece que estamos vendo a frente do rosto). Mas o que acontece quando esta simples máscara de plástico vai sendo movimentada? Acho que você irá ter que dar o braço a torcer no último quadro, pois acredito que apesar de você claramente saber que está vendo a parte de dentro da máscara, parece novamente que você está olhando para uma face convexa não é mesmo?

    Mas porque nosso cérebro funciona assim? O que isto tem a ver com aquela dorzinha que você sente durante o seu treino ou durante as suas atividades do dia a dia? Calma! Eu vou chegar lá. Se você leu o texto até aqui é porque provavelmente eu consegui instigar a sua curiosidade, mas vamos direto ao ponto. É preciso recordar que nosso organismo foi moldado pela pressão evolutiva. Por milhões de anos nossos ancestrais viveram em ambientes altamente variáveis e hostis e nosso cérebro ainda guarda muitos resquícios deste “trauma de infância”. Temos dentro de nossas cabeças uma estrutura extremamente complexa, composta por cerca de 100 bilhões de neurônios, funcionando como um computador altamente sofisticado que realiza “cálculos” estatísticos constantemente tentando utilizar nossa experiência prévia em determinados contextos para determinar, com o melhor chute que ele puder, aquilo que pode acontecer se nos comportarmos de uma ou de outra forma frente a este mesmo contexto. A maior parte destes cálculos ocorre abaixo de nosso nível consciente, de forma que aquilo que percebemos conscientemente já foi previamente filtrado por toda esta análise e possui um único objetivo: nos levar a tomar uma decisão e agir! Se você estiver em uma trilha e ver uma cobra olhando diretamente para você dando todos os sinais que ela irá te atacar você vai: (A) Não dar a mínima e continuar o seu caminho, (B) Fazer um carinho nela ou (C) Ter uma percepção consciente de medo, preparar seu corpo para o pior aumentando seus batimentos cardíacos e diversas outras respostas autonômicas e lutar ou fugir?

    Quando compreendemos que nossas percepções conscientes, sejam elas percepções agradáveis ou desagradáveis, refletem todo este processamento de nosso cérebro que tenta nos levar a agir, realizando novamente aquilo que nos deu algum tipo de prazer ou evitar aquelas situações/contextos que oferecem algum tipo de risco para o organismo (seja este risco físico ou emocional), fica muito claro que aquela dorzinha que você sente é claramente uma mensagem do seu cérebro te sinalizando que algo está errado e que você deve tomar uma atitude. Esta sinalização indica obrigatoriamente que você tem uma lesão ou que a lesão que foi identificada em um exame de imagem é a causa da dor? De forma alguma, e temos um número suficiente de evidências científicas na literatura para afirmar isso. O grande problema é que nós vamos gradualmente modificando nosso padrão de movimento para tentar aliviar a dor, mesmo sem tomarmos consciência deste processo, e isto pode nos levar a desenvolver uma lesão tecidual ou a agravar uma lesão pré existente a longo prazo.

    Mas o que você deveria fazer então? Simplesmente parar de realizar as atividades em que você sente dor? De forma alguma. Se a sua dor está relacionada a movimentos de seu dia a dia ou a sua modalidade esportiva, encare está dor como ela deve ser encarada. Busque um especialista que seja capaz de identificar o motivo pelo qual o seu cérebro está tentando te enviar este sinal de perigo. Caso você tenha interesse em compreender melhor este modelo de fisioterapia baseado na correção dos seus padrões de movimento e na reprogramação do seu cérebro, sem se limitar a uma visão reducionista sobre a sua queixa ou doença, entre em contato conosco.

    Equipe Rehabilitation
    Instituto Opus Magnum