O Gesto Esportivo Construído

  • Durante nosso dia a dia, interagimos constantemente com o ambiente a nossa volta e, até que se prove o contrário, realizamos tais interações por meio de uma única forma: nos movimentando. Para que isto seja possível, nosso cérebro trabalha como um grande maestro organizando os diversos componentes relacionados ao planejamento e controle da postura e dos movimentos, exercendo uma ação indireta sobre o ambiente por meio de nossos músculos e articulações. Por isso, para adquirirmos um nível de coordenação motora adequada, é preciso que nosso cérebro aprenda com eficiência a lidar com as forças mecânicas que estão constantemente interagindo com nosso aparelho musculoesquelético.

    Ao longo de nosso desenvolvimento até a fase adulta, nossa capacidade motora melhora progressivamente na medida que nosso cérebro atinge seu estado máximo de maturação e aprende como antecipar, com eficiência, diversas demandas mecânicas diferentes. Neste contexto, o que é a prática de esportes senão a inserção de um indivíduo em demandas mecânicas normalmente não encontradas em nosso dia a dia?

    Se levarmos isto em consideração, fica claro que a melhora de nosso desempenho ao praticar uma modalidade esportiva é diretamente proporcional a velocidade que nosso cérebro aprende a identificar e lidar com as demandas exigidas pela tarefa. Este processo de formação do gesto esportivo é construído tentativa a tentativa, tendo como base fatores como a atenção e a motivação, mas sendo grandemente influenciado por outros fatores, tais como: atingir os resultados, o esforço exigido para cumprir a atividade e o feedback externo de um coach/instrutor.

    Devemos sempre lembrar que nosso cérebro sempre irá buscar as formas mais eficientes para atingir os resultados pretendidos. Por conta disso, se apenas a melhora dos resultados no esporte for levada em consideração durante a construção do gesto esportivo, padrões de movimento mecanicamente desfavoráveis, que representam “o melhor que temos a oferecer no momento”, podem ser fortalecidos e se transformar em parte do nosso padrão de movimento naquela determinada modalidade a longo prazo. Aqui é a parte em que as pessoas começam a nos perguntar “Tudo bem, mas onde está o problema nisso? ”. O problema é simples, no alto nível de performance esportiva o bom desempenho sempre estará ligado a biomecânica. Como nosso cérebro só é capaz de atuar no ambiente através de músculos e articulações, conforme a intensidade de treinamento ou o nível de competição aumentam, o incremento das demandas mecânicas sobre nosso corpo torna a maior parte dos padrões de movimento ineficientes (e apenas os gestos esportivos mecanicamente adequados passam a ser efetivos).

    Além do efeito sobre a possibilidade de lesão, formulações recentes sugerem que a maioria de nós falha em atingir níveis de performance superiores ao do “hobby” precisamente por automatizar o gesto esportivo em um nível que achamos agradável, ao invés de continuarmos o processo de lapidação de nosso padrão de movimento. É exatamente por isso que a presença de fisioterapeutas esportivos é tão importante. É preciso que o gesto esportivo seja lapidado, desde a sua origem, levando em consideração tanto a melhora dos resultados quanto o padrão biomecânico. Caso contrário, estaremos deixando este processo ao acaso e o padrão mecânico selecionado pelo atleta pode trazer consequências nefastas para sua carreira a longo prazo.

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    Instituto Opus Magnum